Oráculo Genético!

28 de julho de 2010

Oráculo genético

Esqueça o livre-arbítrio, a educação carinhosa que você recebeu em casa ou a moral pacifista. Para o neurocientista Steven Pinker, o homem é aquilo que está escrito em seus genes.

por Rodrigo Rezende

Um bebê nasce com alma naturalmente boa. Tudo o que ele será no futuro depende de como a sociedade o tratar. Essa idéia influenciou o desenvolvimento de todas as sociedades liberais da história. Mas, para o psicólogo e neurocientista Steven Pinker, a natureza cordial não passa de balela – bebês “bonzinhos” não conseguem vencer a competição da seleção natural para se reproduzir e passar seus genes adiante. E a noção de que uma criança é como uma folha em branco a ser preenchida pelas experiências na sociedade, a chamada Teoria da Tábula Rasa, já deveria estar morta há tempos. Enterrar de vez essa influente corrente de pensamento e definir o quanto os genes determinam a natureza humana é o principal objetivo de Pinker – não é à toa que suas aulas em Harvard atraem legiões de fãs. Ele acredita que devemos conhecer nossos limites biológicos, mesmo que isso leve à dolorosa conclusão de que somos tão capazes de solucionar os mistérios da consciência e do livre-arbítrio quanto um cachorro é capaz de resolver equações matemáticas.

P. No ano passado, o reitor da Universidade Harvard, Lawrence Summers, foi criticado por afirmar que a desproporção na presença de homens e mulheres no meio científico é determinada mais por fatores genéticos que por sociais, como o sexismo. Por que você ficou do lado de Summers nessa polêmica?

R. Para ser mais exato, foi Summers quem ficou do meu lado, pois seus comentários retomam idéias discutidas em meus livros, especialmente a crítica à Teoria da Tábula Rasa. Na minha opinião, a evidência científica de que há diferenças naturais entre homens e mulheres é bem clara. Eu não acho que esse seja um tema controverso no mundo científico – a controvérsia é causada por razões políticas. Acredito que razões políticas e fatos científicos não devem ser misturados.

E quais são as diferenças entre homens e mulheres que podem influenciar o desempenho na carreira científica?

É importante deixar claro que as evidências são estatísticas. Uma diferença é que os homens se interessam mais por objetos inanimados e sistemas com regras abstratas, enquanto as mulheres têm, em média, mais interesse por estudar a vida e as pessoas. Estudos provam que meninas recém-nascidas fazem mais contato visual com pessoas enquanto meninos tendem a olhar mais para objetos. E isso se reflete nas estatísticas profissionais. Em 2001, 54% dos doutorados de mulheres nos EUA foram na área de ciências sociais e só 17% em engenharia. Outra diferença é que homens são mais capazes de visualizar e manipular mentalmente objetos em 3 dimensões. Essa habilidade é importante para a ciência e esteve presente no pensamento de cientistas criativos como Albert Einstein. As mulheres são melhores em cálculo matemático e têm melhores notas em matemática na escola. Mas os homens obtêm, em média, mais pontuação em testes que envolvem raciocínio matemático abstrato. Os homens também estão mais preocupados em obter status que em constituir uma família. Então dedicam, em média, mais tempo à carreira. Claro que também há fatores sociais envolvidos nessas diferenças, mas acredito que a biologia tem uma contribuição maior que zero para a existência delas.

A diferença entre os gêneros pode impedir que homens e mulheres compitam de igual para igual?

Não, claro que não. Isso seria loucura. Nós sabemos muito bem que atualmente as mulheres já competem com os homens na ciência. As evidências sugerem apenas que a probabilidade de possuir habilidades úteis para a ciência é diferente entre os gêneros. Isso não significa, por exemplo, que os homens tenham mais habilidades especiais que as mulheres. Também não significa que todo homem seja melhor que toda mulher nem que não exista mulheres mais talentosas que homens. Uma analogia útil para entender essa diferença é o fato de que as mulheres vivem mais tempo, em média, que os homens. O que não quer dizer que toda mulher irá viver mais que todo homem nem que não existam homens muito velhos. É só uma diferença estatística.

Por que – e quando – o cérebro de homens e mulheres desenvolve essas habilidades distintas?

O principal fator responsável por isso é a ação da testosterona no cérebro do menino ainda no útero, o que causa mudanças neurais. Essas mudanças também são geradas por hormônios no período da puberdade e determinam nossas diferenças biológicas.

Que evidências científicas contradizem a Teoria da Tábula Rasa e reforçam a tese de que a natureza humana é mais determinada pelos genes que pela criação e educação?

Parte das evidências vem de estudos com gêmeos e crianças adotivas. Esses estudos provaram que as crianças adotadas têm traços de personalidade e quociente de inteligência mais parecidos com os de seus pais biológicos que com os dos pais adotivos. Provaram também que gêmeos idênticos são mais parecidos que gêmeos fraternos, independentemente de serem criados juntos ou separados. Outra evidência é que efeitos genéticos determinam distúrbios de cognição, como o autismo e deficiências da linguagem, que limitam a capacidade de aprendizado. Mais evidências vêm do fato de que todas as culturas humanas partilham centenas de características universais de comportamento, como a expressão facial das emoções, a presença de tabus alimentares e a existência de estupro. Como essas características não dependem de fatores culturais, podem estar relacionadas com a genética.

Já que a inteligência das pessoas é em grande parte determinada geneticamente, você considera necessário mudarmos nosso sistema educacional e os métodos de ensino?

Acho importante discutir a política educacional, embora ainda não haja a definição de qual política deve ser seguida. Há vantagens e desvantagens em classificar crianças de acordo com suas habilidades e colocá-las em classes separadas. Saber que existem habilidades inatas é, ao mesmo tempo, bom e ruim. Bom porque nos dá a possibilidade de aproveitar ao máximo as melhores habilidades de cada criança. E ruim porque pode criar divisões de classes sociais que são nocivas à sociedade. Essa é uma questão política e moral que a ciência não pode resolver. Mas ao menos a ciência nos lembra que devemos encarar esse problema.

Que conceitos educacionais deixam de fazer sentido à luz da nova visão da natureza humana?

A idéia de que as crianças são naturalmente preparadas para a leitura e a matemática do mesmo modo que estão preparadas para lidar com a linguagem falada. E também a noção de que basta dar às crianças um ambiente culturalmente rico que as habilidades vão florescer sem a necessidade de nenhuma instrução formal. Eu acredito que o aprendizado da leitura e da matemática não é biologicamente natural e, portanto, exige um professor e um programa educacional.

Avanços na neurociência, como o desenvolvimento de novas drogas para o cérebro, serão capazes de alterar os limites da inteligência humana?

De alguma forma, sim. Mas não de maneira substancial. Talvez desenvolvamos algo como um café muito forte e sem efeitos colaterais. O poder de concentração melhorará e haverá progressos em relação à memória. Mas não acho que conseguiremos um aumento considerável de inteligência. Não acredito que uma nova droga torne possível aumentar a capacidade lógica de uma pessoa, por exemplo.

A violência é parte essencial da natureza humana?

Acredito que sim. A idéia de que a violência é um problema possível de ser exterminado por medidas simples, como encorajar as mães a estimular as crianças nos primeiros 3 anos de vida, é questionável. Eu acho que os que discordam de que o homem tem inclinação natural a usar a violência estão enganados. A menos que haja outro método de resolver conflitos, nós a usaremos. Enquanto a violência for uma alternativa para as crianças alcançarem seus objetivos pessoais, não acredito que qualquer medida educacional conseguirá acabar com ela.

Estudos recentes afirmam ser possível prever a futura tendência política de uma criança a partir da personalidade. Como a personalidade é influenciada pela genética, isso quer dizer que até o nosso voto tem relação com os genes?

De certo modo, sim. Esses estudos estatísticos apresentam evidência de que nossa orientação política é parcialmente determinada pelos genes. Ou seja, o fato de você ser liberal ou conservador é, pelo menos em parte, um produto de sua herança genética.

A genética e a neurociência serão capazes de explicar os mistérios do livre-arbítrio e da consciência?

Não acredito que entenderemos completamente o livre-arbítrio. Até porque não está claro se ele é ou não um problema inteiramente científico. Como ainda nem definimos exatamente o que é o livre-arbítrio, fica impossível ter clareza até mesmo sobre o que não entendemos a respeito dele. Também não há uma boa explicação para a existência da experiência subjetiva a que chamamos consciência. Talvez o nosso cérebro, a única ferramenta computacional com que a seleção natural nos equipou, nunca seja capaz de explicá-la claramente.

Com o avanço da ciência, a doutrina da Tábula Rasa deixará de ser influente?

Não sei. Acho que há muita pressão política para que as pessoas continuem acreditando na Teoria da Tábula Rasa. Não acredito que ela desaparecerá assim tão fácil da sociedade.

[Super Interessante, Maio 2006 - Edição 226]

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Steven Arthur Pinker (Montreal, 18 de setembro 1958) é um psicólogo e lingüista canadense da Universidade de Harvard e escritor de livros de divulgação científica. Durante 21 anos foi professor no Departamento do Cérebro e Ciências Cognitivas do Massachusetts Institute of Technology antes de regressar a Harvard em 2003. Pinker completou o bacharelado em Psicologia da Universidade McGill no ano 1976, e doutorado em Psicologia Experimental da Universidade de Harvard em 1979. Pinker escreve sobre a linguagem e as ciências cognitivas em vários níveis, desde artigos especializados até publicações de divulgação científica. Ele é mais bem conhecido pela sua pesquisa da aquisição da fala e pelo seu trabalho sobre as noções de desenvolvimento inato da linguagem avançadas por Noam Chomsky. No entanto, ao contrário de Chomsky, Pinker considera a linguagem como uma adaptação evolutiva.

O livro de Pinker Tábula rasa (The Blank Slate) esteve entre os finalistas para o Prêmio Pulitzer e The Aventis Prizes for Science Books. Em 2004, Pinker foi nomeado uma das 100 pessoas mais influentes da Revista Time.

BIBLIOGRAFIA

LIVROS:

  • Language Learnability and Language Development (1984)
  • Visual Cognition (1985)
  • Connections and Symbols (1988)
  • Learnability and Cognition: The Acquisition of Argument Structure (1989)
  • Lexical and Conceptual Semantics (1992)
  • The Language Instinct (1994) (tradução portuguesa por Laura Teixeira Motta: O Instinto da linguagem)
  • How the Mind Works (1996) (tradução portuguesa por Laura Teixeira Motta: Como a mente funciona)
  • Words and Rules: The Ingredients of Language (1999)
  • The Blank Slate: The Denial of Human Nature in Modern Intellectual Life (2002) (tradução portuguesa por Laura Teixeira Motta: Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana )
  • Pinker, S. The Stuff of Thought: Language as a Window into Human Nature, Viking Adult, 1st edition , 2007, ISBN 978-0670063277
  • Pinker, S. Do que é feito o pensamento: A língua como janela para a natureza humana, Companhia das Letras, 2008, ISBN 9788535913026

Artigos e ensaios

  • Pinker, S. (1991) Rules of Language. Science, 253, 530-535.
  • Ullman, M., Corkin, S., Coppola, M., Hickok, G., Growdon, J. H., Koroshetz, W. J., & Pinker, S. (1997) A neural dissociation within language: Evidence that the mental dictionary is part of declarative memory, and that grammatical rules are processed by the procedural system. Journal of Cognitive Neuroscience, 9, 289-299.
  • Pinker, S. (2003) Language as an adaptation to the cognitive niche. In M. Christiansen & S. Kirby (Eds.), Language evolution: States of the Art. New York: Oxford University Press.
  • Pinker, S. (2005) So How Does the Mind Work? Mind and Language, 20(1), 1-24.
  • Jackendoff, R. & Pinker, S. (2005) The nature of the language faculty and its implications for evolution of language (Reply to Fitch, Hauser, & Chomsky) Cognition, 97(2), 211-225.

LIGAÇÕES EXTERNAS

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SILAS MALAFÁIA E SUA HOMOFOBIA [Clique aqui]

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