FANATISMO EVANGÉLICO


A SEGUNDA VINDA DE CRISTO


Conforme se aproximava o ano 2000, os protestantes fundamentalistas (entre os quais incluo os membros das igrejas pentecostais e seitas marginais como os Adventistas do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová) estavam cada vez mais certos de que a Segunda Vinda do Senhor estava próxima. Muitos livros sensacionalistas foram publicados e ainda estão sendo publicados, mostrando como a correta interpretação dos Livros de Daniel e da Revelação prova que o êxtase dos crentes, a Batalha do Armagedom e o fim do mundo conhecido ocorrerão muito, muito em breve. Esses livros são desde os inúmeros de Hal Lindsay, que vendeu milhões, a obras obscuras que identificam o Anticristo e revelam o significado do 666, seu número.

Os que acreditam na iminência do retorno do Cristo talvez se aborreçam com o fato de que, desde que os evangelhos foram escritos, grande número de cristãos aplicou os sinais bíblicos do fim à sua própria geração. A triste história dessas profecias falhas não impressiona os fundamentalistas de hoje. Até Billy Graham, que deveria saber melhor do que os outros, durante décadas pregou e escreveu sobre o iminente retorno de Jesus. Ele admite que ninguém pode saber o ano exato, mas, acredita, tudo indica que o grande evento está quase em cima da humanidade.

CONTAGEM REGRESSIVA!

É freqüentemente dito que a atual excitação sobre a Segunda Vinda, centrada no ano 2000, teve seu paralelo no pânico a respeito do fim do mundo que varreu a Europa cristã com a aproximação do ano 1000. Será que esse pânico realmente aconteceu? Em seu livrinho O milênio em questão (Cia das Letras) (1997), Stephen Jay Gould afirma que a resposta está longe de clara. Hoje, conta ele, há uma enorme literatura sobre o tema, variando desde as opiniões que afirmam que a Europa realmente experimentou um “terror pânico” à alegação de que não aconteceu nada desse tipo.

Gould cita o AD 1000: Living on the Brink of the Apocalipse [Ano 1000 d.C.: a vida à beira do Apocalipse], de Richard Erdoe (1988), como uma recente defesa da escola do terror pânico. Erdoe é um alemão que hoje vive em Santa Fé, Novo México, autor de dois livros anteriores, The Sundance Principle e American Indian Myths [O princípio Sundance e Mitos dos índios americanos]. “No último dia do ano 999”, começa a história de Erdoe, “… a velha Basílica de São Pedro em Roma foi lotada por uma multidão de fiéis que choravam e tremiam à espera do fim do mundo”.

Na outra ponta do espectro, Gould cita Fim de século (Cultura), de Hillel Schwartz. O autor nega que tenha ocorrido qualquer espécie de agitação relativa à Segunda Vinda com a aproximação do ano 1000. Uma visão intermediária – houve alguma agitação, mas não muita – é habilmente defendida pelo historiador francês Henri Focillon em L´Na 1000 [O ano 1000] e por Richard Landes, um historiador da Universidade de Boston, em Visiono f the End: Apocalyptic Traditions in the Middle Ages [Visões do fim: tradições apocalípticas na Idade Média]. Landes mostra que, como o mundo não acabou, não houve desejo de guardar registros. Para este autor é uma afronta pensar que a população não sabia que era o ano 1000. Para uma boa história desse debate, veja o artigo de Patrícia Bernstein, “Terror in A D. 1000” [Terror no ano 1000], na Smithsonian (julho de 1999, pp. 115-25) e as referências por ela citadas.

Gould admite que preferia a posição de Schwartz até assistir ao congresso internacional sobre “O apocalíptico ano 1000”, ocorrido na Universidade de Boston, em 1996. O organizador, o historiador Richard Landes, especialista em história medieval, convenceu Gould de que houve grande “agitação milenar” no ano, especialmente entre os camponeses europeus. Um importante arauto do terror milenar foi um monge chamado Raoul Glaber. Como quase todos os profetas que falham, Glaber encontrou um erro em seus cálculos quando o Cristo não apareceu. Os mil anos deveriam ser contados depois da morte de Cristo, não a partir de seu nascimento. Isto passava o fim do mundo para 1033.

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Quando o ano 2000 se aproximava, foram feitas centenas de previsões sobre a data do retorno do Senhor. Aqui estão alguns exemplos especialmente engraçados.

Em 1988, Edgar C. Whisenant, um engenheiro aposentado da NASA que vivia em Little Rock, Arkansas, de 56 anos, publicou uma pequena brochura com o título 88 reasons why the rapture will be in 88 [88 razões pelas quais o arrebatamento será em 88]. O editor, uma firma de Santa Rosa, Califórnia, disse que deu ou vendeu mais de seis milhões de exemplares. O livrinho previa que o evento se daria no dia 11, 12 ou 13 de setembro de 1988. Quando o evento deixou de acontecer, Whisenant descobriu um pequeno erro em seus cálculos e passou a data para 1º de setembro de 1989. Quando essa data também mostrou-se errada, (daí por diante) Whisenant decidiu não abrir mais a boca. Contou a um repórter que estava sob medicação para controlar esquizofrenia paranóide, mas sua condição mental nada tinha a ver com seus cálculos.

Em 1988, a Victory House, uma empresa fundamentalista de Tulsa, publicou Gorbachev! Has the Real Antichrist Come? [Gorbachev! Será que o verdadeiro Anticristo chegou?] Seu autor, Robert W. Faid, apresentado na capa como engenheiro nuclear e autor de A Scientific Approach to christianity [Uma abordagem científica da cristandade]; vive em Taylors, na Califórnia do Sul. Usando complicados sistemas de numerologia, Faid descobre em um destes que o nome completo de Gorbachev dá 666 e, em outro, dá 888, número que Faid identifica com Jesus. Assim, Gorbachev é ao mesmo tempo a Besta da Revelação e o falso Cristo. Faid avisa que a Segunda Vinda ocorrerá no ano 2000 ou pouco depois. Parte deste livro pirado foi publicada na Harper´s Magazine (janeiro de 1989). Não sei se hoje Faid ainda pensa que o coitado do Gorbachev é a encarnação de Satã.

A MARCA!

O correspondente John Earwood chamou minha atenção para um livro bem mais engraçado. Com o título 666: The Final Warning [666: o aviso final], o autor é Gary D. Blevins, ex-corretor de seguros da Prudential Life Insurance, hoje consultor financeiro no Tennessee. Esta brochura ricamente ilustrada foi publicada privadamente pela editora de Blevins, Vision Of the End Ministries, e pode ser obtida escrevendo-se para P.O.Box 944, Kingston, TN 37662, EUA. O livro tem 494 páginas e uma introdução de Texe Marrs. Outro fundamentalista e autor de diversos Best-sellers.

O livro de Blevins se baseia inteiramente no que ele chama de Código Secreto da Bíblia, código esse inventado por outros fundamentalistas, cujos livros recomenda. O código é simples. A cada letra é atribuído um número que é produto de 6 multiplicado pelo número da letra no alfabeto. Assim A = 1 x 6 = 6; B = 2 x 6 = 12; C – 3 x 6 = 18 – e assim por diante, até Z = 26 x 6 = 156.

Blevins deve ter trabalhado por muito tempo e muito duramente em seus cálculos, aplicando o código a centenas de nomes e frases para produzir somas pertinentes, especialmente o resultado 666, o famoso “número da Besta”, mencionado na Revelação.

Blevins se mostra surpreso por haver descoberto que a soma de Kissinger é 666, mas logo percebe que Henry Kissinger não poderia ser o Anticristo, porque não correspondia às “orientações das Escrituras”. Espantava-se ainda que a soma das letras de tantas palavras e expressões comuns também desse 666 – como New York, ilusion, witchcraft, necromancy, Mark of Beast e Santa Claus [em português, respectivamente, “Nova York”, “ilusão”, “bruxaria”, “necromancia”, “Marca da Besta” e “Papai Noel”].

RONALD WILSON REAGAN

Se não era Kissinger, quem Blevins (em 1990) imaginaria ser o primeiro suspeito de ser o Anticristo? Acredite se quiser, mas o candidato era ninguém menos do que Ronald Wilson Reagan! Cada um dos três nomes de Reagan tem seis letras e o nome inteiro tem seis sílabas. Isto já é bastante suspeito, mas Blevins sente-se levado a fazer mais. Infelizmente, Ronald Reagan dá seis a menos do que 666, mas Blevins conserta essa deficiência acrescentando um A [que em inglês significa um – ou, mais especificamente, um certo...] na frente do nome: A Ronald Reagan. Isto não é tudo. O incansável Blevins consegue encontrar inúmeras expressões relacionadas a Reagan cuja soma é 666. Veja algumas:

Office of Reagan, Rank of Reagan, A Mark of Reagan, Space of Reagan, Ray of Reagan, Vim of Reagan, Tacto of Reagan, Talk of Reagan, Brain of Reagan, Moldo of Reagan, Peer of Reagan, Karma of Reagan, Rancho of Reagan, Hope of Reagan, Faith of Reagan, Old Age of Reagan, Creme of Reagan, Reagan in Japan – e dezenas de outras. [“Escritório de Reagan, posição de Reagan, uma marca de Reagan, espaço de Reagan, raio de Reagan, energia de Reagan, tato de Reagan, conversa de Reagan, cérebro de Reagan, molde de Reagan, par de Reagan, karma de Reagan, fazenda de Reagan, esperança de Reagan, fé de Reagan, velhice de Reagan, o melhor de Reagan, Reagan no Japão.]

Poder-se-ia objetar que até mesmo em 1990, quando o livro de Blevins foi publicado, Reagan já não estava no poder. Isto não o abala nem um pouquinho. Revelação 17:8 não fala na “besta que foi, e não é, e ainda é”? Para Blevins, isto nos diz que Reagan retomará o poder, mas agora em escala global. Ele dominará o mundo por meio de um supercomputador (o código de Blevins dá a computer [“computador” em inglês] a soma de 666) e controlará tudo com códigos de barra implantados nas mãos e nas testas. Ele será ajudado pelos maçons (Blevins acredita que a maçonaria é um culto satânico) e pelo papa atual. Blevins nos lembra que Reagan é maçom honorário, acredita na astrologia e em amuletos da sorte e que 33 é seu número de sorte.

Blevins admite que não está absolutamente certo de que Reagan está destinado a se tornar a Besta do Apocalípse; diz que gosta de Reagan pessoalmente e que espera que ele não demonstre ser o Anticristo. Contudo, para ele, “o alarme deve ser tocado”. Na opinião de Blevins, há “esmagadoras” evidências de que Reagan é o suspeito número um.

Blevins fornece um esboço experimental do que os próximos anos guardam para nós (em 1990!). Em 1991-94, a cidade de Nova York será destruída e OVNIs aterrissarão. Em 1996, a mente de Reagan tomada por Satã será transformada no Anticristo, que dominará o mundo por mil anos. Em 1998, Reagan será lançado num lago de fogo, os fiéis entrarão em êxtase, Jesus voltará e Satã será preso por mil anos. No ano 3000, Satã irá para o lago de fogo com os ressurgidos não-salvos e Jesus dominará uma nova Terra pacífica.

“A maioria dos verdadeiros teólogos de nossos dias afirma categoricamente que não veremos o ano 2000 antes do retorno do Senhor! Concordo firmemente com esta afirmação!” – escreveu Blevins.

Agora que 1998 passou, sem nenhum sinal do Senhor e que Reagan certamente já não é mais capaz de dominar o mundo, seria de imaginar-se que um Blevins envergonhado se desculpasse por seus equívocos e retirasse o livro do mercado. Nada disso. Em 1999, enviei-lhe 16 dólares e 50 centavos por um exemplar – que prontamente chegou, sem nenhum sinal de repúdio ao escrito. A editora Visiono of the End Ministries de Blevins deve precisar do dinheiro…

O FIM DO MUNDO


Em Seul, na Coréia do Sul, em 1992, Lee Jang Rim, chefe de uma das duzentas e tantas igrejas protestantes naquele país, criou uma histeria nacional ao anunciar que o fim do mundo ocorreria no dia 28 de outubro de 1992. A profecia se baseava numa visão que um menino de 16 anos tivera. Vinte mil fundamentalistas coreanos na Coréia do Sul, em Los Angeles e na cidade de Nova York levaram a sério a previsão. Centenas largaram os empregos, abandonaram as famílias e fizeram abortos para se prepararem para a viagem aos céus. A igreja de Rim pagou anúncios caríssimos no Los Angeles Times e no New York Times. Insistiam em que os leitores se preparassem para sua viagem pelos céus, e que se recusassem a permitir que o 666 fosse gravado em código de barras em sua testa ou na mão direita.

Polícia de repressão, oficiais em roupas comuns e repórteres se amontoavam do lado de fora das igrejas coreanas, ladeadas por metralhadoras, ambulâncias e faróis de busca. Os fiéis aceitaram calmamente a falha da profecia e não houve informação de nenhum tumulto. Apenas tristeza. Em dezembro de 1992, Rim foi preso e sentenciado a dois anos de prisão por haver arrancado 4,4 milhões de dólares de seu rebanho. Ele havia investido o dinheiro em ações que só seriam liberadas no ano seguinte!

Em 1992, Harold Camping publicou seu 1994? – por uma editora especializada em edições de autor. Previa que a Segunda Vinda ocorreria em setembro daquele ano. Em 1993, foi publicada uma sequência intitulada Are you ready? [Você está pronto?] Juntos, os dois livros continham um total de 955 páginas. Formado como engenheiro civil, Camping fez muito dinheiro na direção de uma construtora para, em 1959, fundar a Family Stations, Inc. Em pouco tempo, passou a controlar trinta e nove estações de rádio. Estudioso leigo da Bíblia, Camping tinha um programa noturno de entrevistas em sua sede, em Oakland, na Califórnia. Quando em setembro passou sem sinais do Senhor, ele mudou sua data para 2 de outubro. Quando esta passou sem maiores acontecimentos, esgotou suas desculpas e resolveu não estabelecer mais nenhuma data.

(O Umbigo de Adão: Martin Gardner; tradução Beatriz Sidou. – Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.)

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POR GILSON GONDIN:

O Fracasso do Jesus Profeta

É amplamente sabido que os primeiros cristãos, os cristãos do século I, esperavam para muito breve, para seu próprio tempo de vida, a volta, o retorno de Jesus Cristo, a Segunda Vinda, a chamada parousia, palavra grega que significa “presença”. Selecionei três trechos de três obras diferentes que dão testemunho de tal expectativa. O primeiro livro é God is not Great (Deus não é grande) do jornalista inglês Christopher Hitchens. Ele diz na p. 56 de sua edição americana em brochura: “Paulo claramente pensava e esperava que o tempo estava acabando para a humanidade”. Hitchens é confirmado por Richard Tarnas, filósofo americano, em A epopéia do pensamento ocidental, cuja p. 151 afirma: “Como a Segunda Vinda não ocorreu conforme a primeira geração de cristãos havia esperado, o dualismo que tinha uma forma nos Sinópticos assumiu uma dimensão mais mística e ontológica sob a influência do Evangelho de João”.

Em A História do Futuro – O que há de verdade nas mais famosas profecias e previsões, o historiador canadense David A. Wilson trata do assunto de forma mais detalhada (pp. 41-42):

O cristianismo, em seus primórdios, era permeado de expectativas do milênio, intensificadas pelas próprias palavras de Cristo, como relatado nos evangelhos de Marcos e Mateus: “Em verdade vos digo que entre aqueles que estão aqui presentes”, disse Mateus a seus discípulos, “há alguns que não morrerão antes que vejam o Filho do Homem vir ao seu reino”. Ao mesmo tempo, a noção dos mil anos de reinado de Cristo foi ampliada para incorporar não só os mártires revividos, como todos os fiéis seguidores de Cristo. O milênio, acreditava-se, aconteceria em breve e abrangeria toda a comunidade cristã.

Prossegue Wilson:

O único problema é que a Segunda Vinda teimosamente se negava a se materializar. Algo estava claramente errado: crescia a lacuna entre as expectativas e a realidade e explicações faziam-se imperiosas. Na verdade, o cristianismo atravessava a mesma crise que cerca todos os movimentos cujas profecias não se concretizam. A solução, nesse caso, era sustentar que os textos apocalípticos deviam ser compreendidos em termos alegóricos, e não literais, e empurrar o milênio cada vez mais para o futuro.

Ainda Wilson:

A solução adequava-se bem ao caráter organizacional mutável do cristianismo. Ao final do século IV, com a conversão do Império Romano, o cristianismo evoluíra de uma seita perseguida para uma religião estabelecida. Sob essas circunstâncias, as tarefas práticas de assegurar uma estabilidade institucional a longo prazo tornaram-se mais importantes do que se preparar para o apocalipse – especialmente quando todas as previsões anteriores sobre a Segunda Vinda haviam provado ser falsas.

Cabe perguntar se o capítulo 16 do Evangelho de Mateus é causa ou conseqüência da expectativa cristã primitiva de um iminente retorno de Jesus. Segundo o escritor espanhol Juan Arias, autor de Jesus, esse grande desconhecido, o Evangelho de Marcos foi escrito entre os anos 60 e 70, provavelmente no ano 64, pouco depois de Nero ter acusado os cristãos de incendiarem Roma e depois do martírio de Pedro e Paulo. Escreve Arias na p. 41: “Marcos escreve o evangelho com o propósito de preparar os cristãos perseguidos para a gloriosa segunda vinda do Messias. Essa missão condiciona muitos dos feitos e ditos de Jesus narrados em seu evangelho”. De fato, em seu capítulo 13, o Evangelho de Marcos descreve uma imensa tribulação e o retorno do “Filho do Homem”, dizendo no versículo 30: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça”, e aparentemente se desdizendo logo a seguir (versículo 32): “Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai”.

Os versículos 3 a 13 da segunda epístola de Pedro e os versículos 6 a 8 do primeiro capítulo de Atos dos Apóstolos vão na mesma linha de Marcos 13:32. O capítulo 16 de Mateus, no entanto, segue a linha de Marcos 13:30. Isto nos traz finalmente ao Evangelho de Mateus, que costuma ser o primeiro a aparecer no Novo Testamento. Calcula-se, diz Arias na p. 46, que o Evangelho de Mateus foi escrito por volta de 80 d. C., cerca de quinze anos após o Evangelho de Marcos. Não se tem certeza, acrescenta Arias, de que seu autor tenha sido o apóstolo Mateus, o coletor de impostos. Não há certeza também, sempre segundo Arias, de que este evangelho tenha sido escrito originalmente em grego: é possível que o Evangelho de Mateus tenha sido escrito primeiramente em aramaico. Segundo Arias, o autor do Evangelho de Mateus usou duas fontes para escrevê-lo: o Evangelho de Marcos e a chamada fonte Q, ou Evangelho Q, uma coleção de mais de duzentas frases atribuídas a Jesus. Esta coleção foi conhecida originalmente como Quelle (“fonte”, em alemão), nome dado por H. J. Holtzman em 1861 e que J. Weiss abreviaria definitivamente como Q, tal como é hoje conhecida, informa Arias na p. 45. Especula-se que a fonte Q começou a ser escrita em aramaico e terminou de ser escrita em grego, mas não se pode ter certeza, pois a Fonte Q não sobreviveu à escrita dos evangelhos de Mateus e Lucas. Arias acrescenta (p. 46) que o Evangelho de Mateus se dirigia a um público do âmbito judaico-cristão, “revelando preocupação pela redução do número de cristãos de origem judaica em relação aos de origem pagã, o que acabaria rompendo o equilíbrio existente até então”. Por exemplo: no Evangelho de Mateus, os apóstolos são apresentados com uma aura de grande dignidade, certamente para dar importância ao cristianismo mais primitivo, baseado nos apóstolos, que eram todos judeus (Arias, p. 46).

Tendo delineado todo o contexto, podemos agora abordar o capítulo 16 do Evangelho de Mateus, especialmente no que ele tem de mais importante: seu aspecto profético e apocalíptico, explícito nos versículos 24 a 28.

Antes dos versículos cruciais, porém, vamos dar uma olhada panorâmica no capítulo 16. Em sua primeira seção, versículos 1 a 4, Jesus pratica a ironia contra os fariseus e os saduceus, jogando-lhes na cara uma pergunta retórica: “Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?”.

Na seção seguinte (versículos 5 a 12), Jesus aconselha seus discípulos a acautelar-se contra o fermento dos fariseus e saduceus. Os discípulos não entendem a metáfora, levando Jesus a esclarecer sua mensagem (“Como não compreendeis que não vos falei a respeito de pães?”). Os discípulos então entendem que ele se referia à doutrina dos fariseus e saduceus.

A terceira seção (versículos 13 a 20) traz o célebre versículo que tanta celeuma causa entre católicos e protestantes: “… Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Os protestantes argumentam que naquele momento histórico a palavra grega eklesia não significava ainda “igreja”, mas tão-somente “comunidade”. A interpretação da metáfora de Pedro como pedra se complica ainda mais quando nos damos conta de que a conversa, se um dia ocorreu, certamente aconteceu em aramaico, e não em grego. Que palavra terá sido usada em aramaico?

Na quarta seção (versículos 21 a 23), Jesus prevê sua morte e ressurreição, o que leva Pedro a fazer um apelo para que ele não passe por tudo aquilo, apelo que provoca uma áspera e violenta reação de Jesus: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens”. Passamos da metáfora de Pedro como pedra fundamental da igreja ou comunidade para a metáfora de Pedro como pedra de tropeço.

Alcançamos, enfim, a quinta e última seção do capítulo, os versículos 24 a 28. Vou lê-la na íntegra, mas vou me deter em apenas um de seus aspectos (haveria outros a explorar, mas o tempo não permite). Estamos aqui diante de uma forma de expressão bem específica: a profecia apocalíptica. Por volta do ano 80, o Evangelho de Mateus veio reforçar, sendo ao mesmo tempo conseqüência e causa, o sentimento amplamente dominante na época: a parousia estava muito próxima.

* * *

Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.

Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa achá-la-á.

Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?

Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras.

Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encontram, que de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino [grifo meu].

Somente quando ficou claríssimo que já haviam morrido os últimos remanescentes daquela ocasião, os cristãos perceberam que o Filho do Homem talvez não viesse logo. Começaram a procurar outras interpretações para a profecia não cumprida. A Bíblia de Estudo Plenitude assegura:

Jesus está salientando o encontro que alguns dos que aqui estão verão em sua transfiguração.

A transfiguração é um breve episódio em que Jesus aparece resplandecente para alguns discípulos, enquanto se ouve uma voz, supostamente de Deus, apontá-lo como o Filho do Altíssimo.

É óbvio que se trata de uma interpretação forçada, destinada a tapar um buraco, pois Mateus 16:27 deixa absolutamente claro que não se está falando da transfiguração, mas da segunda vinda de Cristo:

Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu pai, com seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras [grifo meu].

Os anjos não estavam presentes na transfiguração. Além disso, a frase “e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras” não deixa margem para manobras: está se falando aqui do Juízo Final que deverá seguir a segunda vinda. A profecia falhou, não há como escapar a este fato. E quem estava profetizando não era qualquer um; era, segundo os cristãos majoritários, o próprio Deus encarnado.

A última seção de Mateus 16 segue, em qualquer um dos três primeiros níveis de interpretação (literal, entrelinhas e moral), um gênero literário que pode ser definido como profecia apocalíptica. Daí porque a interpretação da Bíblia de Estudo Plenitude não tem como se sustentar, pois a transfiguração não é, de modo algum, um apocalipse.

Quaisquer tentativas de interpretação da última seção de Mateus 16 devem levar em conta seu caráter de profecia apocalíptica.

VEJA TAMBÉM:

Referências Bibliográficas

ARIAS, Juan. Jesus – Esse grande desconhecido. Tradução de Rubia Prates Goldoni. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, 231 p.

GONDIM, Gilson Marques. Da Bíblia aos múltiplos universos – Velhas e novas visões da eternidade. João Pessoa: Idéia, 2005, 234 p.

GONDIM, Gilson Marques. Da Bíblia aos múltiplos universos – Velhas e novas visões da eternidade. Osasco: Novo Século, 2005, 248 p.

HITCHENS, Christopher. God Is Not Great – How Religion Poisons Everything. New York: Twelve, 2007, 307 p.

Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Bíblia de Estudo Plenitude. Preparada por João Ferreira de Almeida (Almeida Revista e Atualizada, 1995).

Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Bíblia com Letra Gigante. Preparada por João Ferreira de Almeida (Almeida Revista e Atualizada, 1996).

TARNAS, Richard. A epopéia do pensamento ocidental. Tradução de Beatriz Sidou. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, 588 p.

WILSON, David A. A História do Futuro – O que há de verdade nas mais famosas profecias e previsões. Tradução de Geni Hirata. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002, 266

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